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“Vaquinha virtual” reúne empreendedor e doações

Por Katia Simões | Para o Valor, de São Paulo
No início dos anos 2000, o empresário Carlos César Elias Filho, hoje com 32 anos, queria montar um site para veicular e comercializar as criações de artistas plásticos de Goiânia. O preço, contudo, inviabilizou o projeto. Tudo era muito caro, do layout à hospedagem, passando pela elaboração do conteúdo. Amealhar dinheiro entre os familiares e amigos, nem pensar. Fazer um empréstimo no banco não tinha sentido, o negócio seria engolido pelos juros. O caminho foi abandonar a ideia. Nove anos mais tarde, Elias Filho resgatou o velho projeto que virou tema do seu trabalho de conclusão de curso. Com um plano de negócios detalhado, ele percebeu que precisava de R$ 50 mil para iniciar a empresa. “Foi quando eu decidi ir para o Kickstarter, o site americano que praticava o que aqui no Brasil a gente costuma chamar de vaquinha, só que de forma virtual”, afirma.

Mas para captar verbas para o seu projeto via Kickstarter era preciso ter uma conta bancária nos Estados Unidos. Ele não tinha. Prospectou a possibilidade de fazer a mesma coisa no Brasil e acabou encontrando o pessoal do Catarse, o primeiro site de crowdfunding brasileiro, que buscava reunir alguns projetos.

O projeto da Rabiscaria permaneceu no ar por 45 dias, captou R$ 23.095,00, que somados às economias acumuladas, deu origem ao primeiro negócio brasileiro viabilizado pelo sistema de crowdfunding. A primeira coleção assinada pelos artistas plásticos goianos foi exibida pelo site em setembro do ano passado, ajudando o novo negócio a atingir um faturamento de R$ 30 mil nos quatro últimos meses de 2011.

Pessoas interessadas em apoiar projetos doam o que querem ou o que podem e recebem alguma recompensa

Apesar do nome pomposo, o crowdfunding nada mais é do que um sistema de financiamento coletivo, um modelo de negócio que permite que indivíduos ou empresas financiem seus projetos através de doações coletivas. O autor da ideia apresenta a sua proposta em uma plataforma on-line e diz quanto quer captar. Por meio desse sistema, pessoas que se interessam em apoiar o projeto doam o que querem ou o que podem. Em troca, o dono do projeto oferece uma recompensa. Se a proposta anunciada for uma peça de teatro, os “colaboradores” podem receber ingressos grátis ou serem recebidos em uma sala vip pelos atores.

Para colocar um projeto no ar não custa nada. Se a proposta for bem-sucedida, o site fica, em geral, com uma comissão entre 5% e 7% do valor arrecadado. A processadora dos pagamentos também cobra uma taxa por transação, enquanto o criador recebe o dinheiro restante e tem domínio total sobre a propriedade intelectual e autoral. Se a meta da arrecadação não for atingida, o dono da ideia sai sem nada e os investidores recebem o dinheiro de volta.

O Kickstarter já viabilizou mais de 380 mil projetos, desde filmes independentes até discos gravados. Mais de US$ 30 milhões em recursos foram solicitados por meio da plataforma, sendo que alguns projetos chegaram a captar mais de US$ 100 mil. “Trata-se de uma iniciativa de financiamento ideal para pequenos negócios focados em nichos. No Brasil, os setores mais abraçados são os que envolvem manifestações artísticas e, aos poucos, produtos e propostas inovadoras ou de cunho social e sustentável, desde que desperte o interesse de um bom número de pessoas”, afirma Marina Miranda, sócia no Brasil da Mutopo, consultoria especializada em crowdsourcing. “O futuro será arrecadar fundos para criar startups, uma iniciativa ainda distante, mas totalmente viável”. De acordo com a consultora, nos Estados Unidos o projeto foi aprovado pelo Senado como forma de obter recursos para a formação de empresas que exijam investimentos de até US$ 2 milhões. A iniciativa tem o apoio do presidente Obama.

O grande desafio, na concepção dos consultores, é amadurecer o conceito no mercado e arrebatar mais pessoas para nichos específicos. Deve-se, também, tomar cuidado com a transparência das operações. “Trata-se de uma operação que só funciona com um grau de confiança grande somado a muita paixão”, afirma Alexandre Cecci, 42 anos, sócio da plataforma de crowdfunding Ativa Aí, voltada para entretenimento e artes em geral. “Nós aproximamos os artistas dos fãs e oferecemos uma ferramenta para levantar fundos para eventos que os fãs querem ver”.

O empreendedor e mais três sócios investiram R$ 300 mil na criação do negócio, que em 11 meses de operação arrecadou R$ 47 mil, inclusive para produzir um dos shows da banda de rock Raimundos. Segundo Cecci, os projetos que não conseguem atingir as metas pré-estabelecidas de financiamento coletivo não fizeram o barulho exigido no lançamento, com pouca divulgação nas redes sociais, ou têm como público alvo gente que não tem por hábito fazer qualquer tipo de transação pela internet.

Alunos da Universidade Federal de São Carlos, Victor Casé de Souza Oliveira e os amigos encontraram no crowdfunding o caminho para financiar o curta metragem “O Mestre Mandou”. A plataforma escolhida foi o Catarse. O projeto ficou no ar por 25 dias, captou R$ 2.100 de 33 investidores. “Trata-se de um modelo dinâmico e rápido para se conseguir fundos para um projeto que, de outra maneira, não se pagaria”, diz Oliveira. “As vantagens são a falta de burocracia e a não obrigatoriedade de prestar conta da quantia arrecadada. A desvantagem é ter de conhecer pessoas capazes de investir no projeto”.

Fonte: http://www.valor.com.br/financas/2847506/vaquinha-virtual-reune-empreendedor-e-doacoes#ixzz27lT7a5zJ

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